Centro Loyola de Fé

Reflexões Inacianas – Superficial ou radical?

“Cada qual com sua baixeza, cada qual com sua altura” (Guimarães Rosa)

Qual a nossa atitude diante da vida e do nosso cotidiano? Nos dias de hoje, em que se vive praticamente correndo, parece comum a situação de pessoas que multiplicam conhecimentos e experiências, vividas até intensamente, mas de passagem, uma após outra, de afogadilho. Esse ritmo de vida nos oferece (ou impõe) uma rápida sucessão de afazeres, decisões, compromissos e momentos de tensão. Empenhados agora numa atividade, nosso olhar interior já está voltado para o próximo trabalho. Nasce daí um jeito de viver que carece de maior densidade pessoal.

Faz-se muita coisa, mas tudo pela rama, superficialmente. Não podemos deixar de ressaltar que a autenticidade humana, a moralidade e a vida de fé reclamam uma interioridade que ultrapassa em muito o superficial. Exigem profundidade, raízes firmes, consciência sólida. Não por mera questão de eficácia. Os que conduzem a vida pela raiz vivem o aqui e agora como se fosse o último momento das suas vidas. E são capazes de viver a transparência da verdade na sua dedicação a um projeto comunitário que seja sinal e pleno de sentido.

É questão de verdade pessoal

Pessoa limpa, pensa limpo” (Guimarães Rosa) e assim pensam os radicais, os que vão até às raízes das coisas e que são tolerantes, reconhecem o direito à diversidade, lutam por direitos democráticos, em que a diversidade e a pluralidade sejam o solo onde florescem afetos, sonhos, projetos, sociedades. Eles são generosos, fartos, comprometidos até às últimas consequências. Estes são os imprescindíveis nos seus compromissos históricos. Aos radicais cabe manter a lucidez e encontrar no caminho os que vão, com eles, partilhar o pão e a própria vida. São eles os que não tem medo da vida e do seu imprevisível. Sabem que “o medo é a extrema ignorância em momento muito agudo” (Guimarães Rosa).

Para os radicais basta a palavra dada, pois a palavra dada é vida empenhada. São pactos. “O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até no rabo da palavra” (Guimarães Rosa). Por isso, somente os radicais não tem medo nem raiva dos que os ajudam a compreender melhor o mundo e suas relações pessoais.

“Se amas sem despertar amor, isto é, se teu amor, enquanto amor, não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça”. (Marx, Manuscritos).

Os radicais são potentes e férteis nos seus amores e amizades, pois exprimem suas vidas sem raiva e rancor. Pois sabem que “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”. (Guimarães Rosa)

Aos radicais restam seus novos sonhos

Essa atitude diante dos superficiais é de profunda piedade e compaixão, de firmeza e retidão. Eles sabem que são criados à imagem e semelhança de Deus. Um Deus de misericórdia e de compaixão, um Deus plural que se manifesta permanentemente em todos os gestos de busca de justiça e fraternidade. O radical sabe que seu coração é uma fonte inesgotável porque Deus é maior que o nosso coração.

Aos radicais cabe o envelhecer com sabedoria e doçura, e o ganhar a ancestralidade no momento da sua passagem, pois sabem que “as pessoas não morrem: tornam a ficar encantadas” (Guimarães Rosa). Os superficiais morrem e apodrecem. Os radicais se tornam encantados e eternos. Este é o nosso desafio cotidiano: ser radical.

Texto Bíblico  Mt 5, 17-48

 

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