Centro Loyola de Fé

REALEZA DES-CENTRADA (24 DE NOVEMBRO DE 2019)

“Ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (lc 23,43)

Celebramos neste domingo a festa de “Cristo Rei”, cume do Ano Litúrgico.
Muitos se sentem incomodados com essa imagem. Não querem que Cristo seja “rei”, não suportam a imagem de um monarca governando a partir de cima. De fato, quando o Papa Pio XI (1925) proclamou esta festa, havia um interesse nada evangélico: a Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade. Como pura imitação dos reis deste mundo, a Igreja desejava reconquistar sua influência, correndo o risco de utilizar este título para manipular ideias, dominar consciências, alimentar sentimentos de culpa, impor o servilismo e o medo…
Mas, esta festa de “Cristo Rei”, pode ser ocasião propícia para “transgredir” nossa concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem às custas de seus súditos.
Jesus, no seu anúncio e vivência, desencadeou um movimento de Reino, sem tomada de poder, sem palácios e riquezas, sem cetro de comando, sem instituições militares de domínio, sem meios de imposição econô-mica, sem títulos de nobreza. Mas sua visão de Reino não foi acolhida; por isso foi rejeitado pelos sacer-dotes do templo e pelos representantes do poder do império romano.
Evidentemente se trata de um rei muito estranho, em discordância total com os reis de então e os de hoje.
É chamativo este rei ser crucificado entre dois “malfeitores”; não se tratava de criminosos comuns, mas de homens que se haviam levantando contra o poder de Roma.
Algo havia em Jesus que permitia interpretá-lo como um perigo para o poder imperial. Um poeta que canta a beleza dos lírios do campo ou dos pássaros do céu não terminaria sua vida dessa maneira.

A piedade cristã procurou cobrir Jesus de Nazaré com títulos de glória tão pomposos que quase o sepultou de novo. Ao elevar o carpinteiro da Galiléia até a mais alta dignidade, ao fazê-lo subir até o mais alto dos céus, ao coroá-lo rei dos reis e senhor dos senhores…, quase conseguiu silenciar por completo o Jesus dos pobres, das multidões famintas, dos marginalizados, o Jesus rodeado de “más companhias e de pecadores”. Pintaram-no tão acima no céu e tão cheio da deslumbrante luz divina, que quase não somos mais capazes de contemplar Jesus percorrendo os caminhos poeirentos da Galiléia, em meio aos mendigos, leprosos, pobres e excluídos, no empenho por tornar presente o sonho de Deus para este mundo.
Enfim, acabamos por esquecer o que é nuclear em nossa fé cristã: em Jesus, Deus se faz homem, mas homem pobre; nasce em um estábulo, não tem onde reclinar a cabeça e morre desnudo numa cruz, o suplício dos últimos, dos mais pobres daquela sociedade. Jesus sempre viveu voltado para aqueles que sofriam e necessitavam de ajuda. Não ficou alheio a nenhum sofrimento. Sua missão era essa: “aliviar o sofrimento humano”. Por isso se identificou com todos os pobres e excluídos da história.

A narrativa lucana deste domingo é muito provocativa: o único que o reconhece Jesus como rei é um condenado à morte, um maldito, um marginalizado da lei. Este está mais perto do reinado de Deus que as autoridades religiosas e as demais pessoas. Por isso Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Juntos morrerão crucificados e juntos entrarão no Reino de Vida.
Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois malfeitores. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os outros, mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá vida: presença solidária, vida des-centrada que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia e consolo a outros sofredores.
Um dos malfeitores, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.
Em meio aos escárnios e zombarias, brota do seu coração uma surpreendente invocação: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”.
Não se trata de um discípulo ou seguidor de Jesus. Lucas nos apresenta um malfeitor como admirável exemplo de fé no Crucificado, e que no último instante de sua vida “roubou” a promessa de Vida que acontece no “hoje”. “Hoje estarás comigo no paraíso”.

À primeira vista parece um paradoxo que dos lábios de um homem aparentemente derrotado e pratica-mente moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a faz eterna, ou seja, válida para todo momento, em um presente sempre atual: o “hoje” de Lucas significa “todo momento”, qualquer instante em que ouvintes ou leitores se abrem à Palavra.

Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aquelas que carregam cruzes
injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, incompreensão ou pranto…
Desse modo, o evangelista parece estar nos dizendo: “Essa Palavra é válida também para ti, hoje, desde que sejas capaz de abrir-te a ela e acolhê-la. Também para ti há uma promessa de vida, que não se acaba na fronteira da morte. Tu também ‘hoje estarás comigo no paraíso’”
Assim compreendida, a narração nos apresenta uma dupla questão: por um lado, como pôde Jesus pronun-ciar essa Palavra de Vida nessas circunstâncias de morte?; por outro, como podemos acolhê-la, de modo que sejamos alcançados e vitalizados por ela?

A festa de “Cristo Rei” nos convida também a tomar a Cruz da fidelidade e do serviço solidário, e “descer” com Jesus até à cruz da humanidade.
A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, nos fazem descer aos porões das violências sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados pelo preconceito e intolerância, às peri-ferias insalubres da miséria das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucifica-dos da história.
Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angusti-ado. Nele se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.
Ao ecoar seu grito junto aos crucificados, provocará grandes novi-dades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a vida.

Texto bíblico: Lc 23,35-43

Na oração: o Crucificado desmascara nossas mentiras e covardias; pen-
dente na Cruz Seu grito denuncia o aburguesamento de nossa fé, a nossa acomodação ao bem-estar e nossa indiferença diante daqueles que sofrem. Celebrar a festa do “Cristo Rei” é aproximar-nos mais dos crucificados da nossa história e comprometer-nos a tirá-los da Cruz.
Como soarão estas palavras no interior de cada um de nós: “Hoje estarás comigo no Paraíso”
+ Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já…; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas…
+ Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não conseguimos entender.
+ No paraíso: que não é um mítico Éden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.
– Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso em nosso cotidiano.
Que a festa de Cristo rei seja uma ocasião privilegiada que nos ajude a des-velar a verdadeira realeza de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, para poder segui-Lo de perto, comprometendo-nos com seu modo de ser e viver.

Pe. Adroaldo Palaoro,SJ

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