Centro Loyola de Fé

A AVENTURA DA FÉ (29 DE SETEMBRO DE 2019)

“Senhor, aumenta a nossa fé” (Lc 17,5)

Os relatos evangélicos nos oferecem a possibilidade de conhecer o “caminho” aberto por Jesus. É o que revala a mensagem do evangelho deste domingo, a partir do pedido dos apóstolos: “aumenta nossa fé!”.
Jesus não responde diretamente, pois quer dar a entender que a petição não está bem formulada. Não se trata de quantidade, mas de autenticidade. Jesus não lhes podia aumentar a fé, por mínima que fosse. A fé não pode ser aumentada a partir de fora; ela deve crescer a partir de dentro, como o grão de mostarda.
A fé é uma vivência de Deus; por isso, não tem nada que ver com a quantidade.
Efetivamente, podemos dizer que a fé é um dom de Deus, mas um dom que já foi dado a todos; à medida que a pessoa entra em sintonia com a presença de Deus em tudo e em todos, sua fé se expande e amadure-ce, ativando todas suas potencialidades humanas e abrindo-a a um compromisso de vida.
Precisamos revisar nosso modo de entender e viver a fé cristã, muitas vezes, passiva e estática, infantil e imatura. A fé não é “algo” que uns tem e outros não. A fé é uma vida que se desperta, cresce, se expan-de… Segundo S. Paulo, se cremos em Jesus Cristo “nosso interior vai se renovando de dia em dia” (2Cor. 4,16). A fé viva e operante amadurece no coração de quem vive como discípulo(a) e seguidor(a) de Jesus.
Nesse sentido, a imagem da amoreira transplantada no mar está nos dizendo que toda a força de Deus já está presente em cada um de nós. Aquele que tem confiança em Deus, poderá expandir toda essa energia.
A fé não é um ato, nem uma série de atos, mas uma atitude pessoal fundamental e total que imprime uma direção definitiva à existência. Confiar naquilo que realmente somos nos dá uma liberdade de movimento para desatar todas as nossas possibilidades humanas.

Sabemos que Jesus desencadeou um movimento profético em favor da vida, mobilizando seguidores(as) a quem confiou a missão de anunciar e promover o projeto do Reino de Deus. Por isso, o mais importante para reavivar a fé cristã é ativar a decisão de viver como seguidores(as) seus(suas).
Nesta perspectiva, o critério primeiro e a chave decisiva para entender e viver a fé cristã é seguir Jesus Cristo. Quem o segue vai descobrindo o mistério que se revela n’Ele, situa-se na perspectiva correta para entender Sua mensagem e vai aprendendo a trabalhar a serviço do Reino de Deus. O seguimento constitui o núcleo, o eixo e a força que permite a uma comunidade cristã expandir sua fé em Jesus Cristo.
Por isso, mais que ter fé em Jesus, o decisivo é “viver a fé de Jesus”; seguir Jesus é a opção primeira que há de fazer um cristão. Esta decisão muda tudo. É começar a viver, de maneira nova e criativa, a adesão a Jesus e a pertença à sua comunidade. Encontrar, por fim, o caminho, a verdade, o sentido, a razão do viver cotidiano. Concretamente, viver a “fé de Jesus é crer no que Ele acreditou, dar importância ao que Ele dava, interessar-nos por aquilo que Ele se interessou, defender a causa que Ele defendeu, olhar as pessoas como Ele as olhava, aproximar-nos daqueles que sofrem como Ele se aproximava, sofrer por aquilo que Ele sofria, confiar no Pai como Ele confiava, enfrentarmos a vida e a morte com a esperança com a qual Ele enfrentou.
No seguimento, vamos buscando uma maneira criativa de viver hoje o que Jesus viveu no seu tempo.

Jesus, narrado nos evangelhos, nos ensina a viver a fé, não por obrigação, mas por atração. Faz-nos viver a vida cristã, não como um dever, mas como discípulos(as) e seguidores(as), seduzidos(as) por Ele. No encontro com seu Evangelho, aprendemos seu estilo de viver e descobrimos formas mais humanas e evangélicas de pensar, viver, celebrar e contagiar nossa fé.
Parece uma afirmação óbvia: ser cristão é ser seguidor de uma Pessoa, Jesus Cristo. No entanto, grande parte dos cristãos estão mais preocupados em seguir uma doutrina, uma religião, ou centrar a vida na práti-ca fundamentalista de leis ou normas morais. Muitos buscam mais uma religião que dá segurança e não o Evangelho que inquieta e desinstala.
Ter fé é, sobretudo, viver de acordo com os valores segundo os quais vivia Jesus. Uma primeira afirma-ção importante: vida. A fé é uma vida, uma relação pessoal que nos faz caminhar para aquela expressão feliz de S. Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20).
Um caminho, durante o qual vamos vivendo uma relação pessoal e um progressivo crescimento.
A fé, portanto, é vida e, como tal, tem todas as características da vida, com um suplemento a mais: é vida aberta à vida eterna, à imortalidade; vida que se inspira no modo de viver de Jesus: vida oblativa, ins-piradora, comprometida em favor da vida.

O seguimento exige uma dinâmica de movimento. E seguimento não é questão de razão (doutrina) mas de paixão, sedução, afeto (coração). Seguir Jesus significa viver a aventura da fé: fazer caminho com Ele, identificar-se cada vez mais com Ele, revestir-se do Seu estilo de vida…
Infelizmente, tal como é vivida hoje por muitos, a fé cristã não suscita “seguidores”, mas só adeptos de uma religião. Não gera “discípulos(as)” que, identificados(as) com seu projeto, se entregam a abrir cami-nhos ao Reino de Deus, mas membros de uma instituição que cumprem melhor ou pior suas obrigações religiosas. Muitos deles correm o risco de não conhecer nunca a experiência mais originária e apaixonante: o encontro pessoal com Jesus. Na realidade, nunca tomaram a decisão firme de segui-lo.
A maioria dos cristãos não querem amadurecer na fé por medo das exigências que isso implica.
Alguns se instalam interiormente: já não crescem, não se deixam questionar pelo Evangelho; não creem em sua própria conversão, não se arriscam em aproximar-se de Jesus… Outros vivem sua fé de maneira rotineira e repetitiva: com isso, a oração se faz fórmula, o evangelho torna-se letra morta, a Igreja se transforma em “ong”, a autoridade se faz poder, a missão se reduz a propaganda, o culto vira ritualismo, a ação moral se revela ação de escravos e a fé viva na pessoa de Jesus vai se apagando.

Finalmente, a parábola do empregado cuja única obrigação é fazer o que lhe fora pedido, sem mérito al-gum, está na linha da crítica de Jesus aos fariseus por confiarem no cumprimento da Lei como único cami-nho de salvação. Trata-se do eterno problema da fé ou das obras.
Quantos problemas teríamos evitado se não tivéssemos esquecido o evangelho! Nem Deus tem que aumentar nossa fé, nem somos “servos inúteis”. Descobrir o que realmente somos seria a chave para uma verdadeira confiança em Deus, na vida, na pessoa humana…
Nesse sentido, “somos servidores e nada mais, fizemos o que devíamos fazer”.
A expressão “somos servos inúteis”, revela uma tradução muito limitada. Se o servo fosse inútil, o senhor não lhe pediria serviço algum. Pelo contrário, ele é extremamente útil. Seu trabalho tem muito valor aos olhos do senhor. Mas o servidor não é nenhuma personalidade de destaque. Ele não está acima do senhor, Ele faz seu trabalho; é servidor, e nada mais. Mas serve.
Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas, mas em função da retidão, da fidelidade e da gratuidade, seremos indispensáveis para o projeto de Deus.

Texto bíblico: Lc 17,5-10

Na oração: na vivência cristã, sua fé se resume a algumas “práticas religiosas” ou é expressão de uma profun-
da identificação com o modo de ser e de agir de Jesus?
– sua vida deixa transparecer a “fé de Jesus”? – sintonia com o Pai, serviço humilde aos outros, empenho em fa-
vor da vida, compromisso com os mais pobres e excluídos…
Pe Adroaldo Palaoro,SJ

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.

X