Preparando a confissão

 

Há várias maneiras para preparar a confissão. Quero chama-las de centrada no eu (egocêntrica), centradas na imagem de Deus e centrada no amor.

Podemos nos preparar para a confissão pensando no que fizemos de errado ou deixamos de fazer. É uma boa maneira de nos preparar, porque limpa a área. Percebemos onde não estamos contentes conosco mesmos, seja à luz da razão ou à luz da emoção. No entanto, se ficamos nesta esfera, provavelmente, sairemos frustrados da confissão. Vamos falar sempre das mesmas coisas, parece que não conseguimos mudar. E não conseguimos, pois somos nós a nossa própria referência e de quem precisamos o perdão é de nós mesmos, já que se trata de nossas metas, de nossos objetivos, de nossos parâmetros.

A próxima esfera seria teocêntrica, é quando nos preparamos para confessar pensando em Deus. Vamos pensar nos preceitos da Igreja, nos dez mandamentos, talvez tenhamos um manual tipo espelho da consciência. Esta também é um caminho valioso para perceber como estamos em relação aos ensinamentos da Igreja e em relação à imagem que temos de Deus. Mas pode ser que sairemos insatisfeitos da confissão ou nem a procuramos mais, porque faz parte do ser humano de se rebelar contra aquilo que percebemos como imposto. Aqui, a referência é o outro, aquilo que pensamos que a Igreja, e com ela Deus, espera de nós. Deus fica lá em cima, nós aqui em baixo, ele dita as regras, nós temos que obedecer. A confissão pode nos dar, talvez, certa sensação de alívio, de um novo ânimo, a coragem de recomeçar tantas vezes quantas forem necessárias. Contudo, aquilo que percebemos como rebeldia e a tensão entre nossas próprias vontades e estas expectativas de conduta que atribuímos a Deus não podem ser resolvidos pelo sacramento da reconciliação. Ele pode ser um alimento no caminho.

Na meditação aprendemos um jeito de perceber que é centrado no amor. No silêncio abrimos mão de nós mesmos para deixar Deus ser Deus em nós. Não queremos nada, esperamos nada e, sem nos prender a nada acolhemos o que é e como é, numa atitude aberta, acolhedora, presente, curiosa. Assim vivenciamos o que cremos: não há nada fora de Deus, em tudo, ele nos pode falar e tudo o que criou emana do seu amor. Esta experiência não é fácil, pois é como que o silêncio nos jogasse em nossas próprias mãos. Não é raro que ficamos confusos e sem fôlego. Confiando neste amor abrimos mão de nos julgar (ao egocentrismo); abrimos mão das nossas imagens de Deus, da Igreja, dos outros, daquilo que achamos que esperam de nós. Permanecemos aqui, aguentamos nossa realidade como ela é, agora, dispostos a vê-la com o coração de Deus que habita em nós. Aí, começamos a entrar na esfera do amor, pois procuramos o silêncio porque cremos no amor de Deus, porque estamos tão sedentos, desesperados por este amor que podemos encontrar somente em Deus.  O silêncio nos dispor a receber o que ele quer nos dar, ele, que é o doador de tudo.

No início agradecemos a Deus por ser Deus – e escutamos a resposta dele, nos nutrimos neste encontro. Dizemos a ele que nos sentimos ainda tão aquém de quem somos, seres nascidos do seu amor, filhos e filhas muito amados.  Pedimos ajuda ao Espírito Santo por uma sincera conversão nesta quaresma, neste ano.

A palavra sagrada da meditação será misericórdia. A dizemos com a maior suavidade que temos dentro de nós, com a maior reverência. A pronunciamos ao coração do Pai, de Jesus, de Maria, que nos abraça como alguém abraça uma criança assustada, com medo. Com esta palavra pedimos misericórdia para nós mesmos – e escutamos a resposta. Deixamos a resposta vir no silêncio. O amor vai nos mostrar onde erramos, onde deixamos de amar e de servir, onde ferimos. O amor vai nos guiar e nos segura na dor sobre a nossa conduta, a vergonha. Seguros na presença divina, o pedido de perdão virá naturalmente, juntamente com a certeza que somos acolhidos, amados, aceitos. E saberemos o que é preciso fazer para curar o que ferimos.

Terminamos nossa oração com um gesto de agradecimento e de entrega.

Procurar o sacramento da reconciliação tem agora outro sentido. A referência é o amor que há entre Deus e entre nós. O perdão e a cura vêm deste amor. Expressar em palavras o que experimentamos no silêncio da nossa oração é enraizar nosso interior na realidade, cria uma força dentro de nós muito além da nossa vontade as vezes tão frágil e vacilante.

E procurar o sacramento há outro significado: não estamos sozinhos; em Deus estamos sempre ligados aos nossos irmãos e irmãs, a toda a criação. O que somos, o que fazemos, quer estejamos conscientes disso quer que não, há consequências muito além de nós mesmos. Procurar o sacramento é reconhecer que, em Deus somos um.  E a bênção dele se estende a “mil gerações”.

 

Em poucas palavras:

            Quem ama uma criança não a repreende por causa dos tombos que leva quando aprende a andar, mas se alegra com cada passo, ajuda, torce, encoraja, mostra alternativas.  Às vezes é difícil deixar que a criança aprenda uma lição da vida, mas, tem que deixar, senão, ela não aprende a andar com as próprias pernas.  O amor de Deus seria diferente?